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A carta de amor (e mágoa) nunca enviada mais famosa da história


Prisão em ReadingImage copyrightMORLEY VON STERNBERG
Image captionWilde ficou preso nesta cela em Reading por dois anos; ele começou a escrever "De Profundis" quatro meses antes de ser libertado

Entrar na prisão de Reading, na Inglaterra, é uma experiência inquietante. Mesmo estando em desuso já há alguns anos, o ar muda do lado de dentro e fica pesado como chumbo ao longo de seus corredores estreitos que seguem por quatro direções levando a celas enumeradas.
Foi aqui, em uma cela no bloco C, que o escritor, poeta e dramaturgo irlandês Oscar Wilde ficou isolado durante dois anos, a partir de 1895, após ser preso acusado de "indecência vulgar" com um homem.
Foi um pesadelo que contrastava com o sucesso conquistado por ele com aclamadas obras literárias e teatrais como O Retrato de Dorian Gray (1890) e A Importância De Ser Prudente (1895).
E foi aqui, nos meses anteriores à sua libertação de 1897, que Wilde escreveu o que viria a ser considerada uma das mais importantes cartas da língua inglesa, endereçada a seu amante e traidor, o lorde Alfred 'Bosie" Douglas: De Profundis.
Em 16 de outubro de 2016, o escritor irlandês Colm Tóibín voltou à cela de Wilde para recitar De Profundis. A performance faz parte de uma grande exposição inspirada pela carta - Inside: Artists And Writers in Reading Prison ("Do Lado de Dentro: Artistas e Escritores na Prisão Reading", em tradução livre).
A exposição é apresentada pela organização britânica Artangel e conta com obras de arte de renomados artistas internacionais como Ai Weiwei, que escreveu uma das muitas "cartas de separação" extremamente pessoais deixadas nas celas; Nan Goldin; Marlene Dumas; Tahmima Anam; e Juergen Teller.
A mostra marca a primeira vez que o prédio é aberto para a visitação do público. Embora o uso da prisão tenha mudado ao longo dos anos (o local foi usado como um instituto para jovens delinquentes antes de ser fechado em 2013), uma atmosfera sinistra ainda está presente - assim como o poder das palavras de Wilde.
Em De Profundis, ele descreve "a cama de tábua, a comida repugnante, as duras cordas esfrangalhadas em estopa até as pontas dos dedos ficarem adormecidas de dor... o silêncio, a solidão, a vergonha - cada uma e todas dessas coisas eu tenho de transformar em uma experiência espiritual".

Além do significado

Tóibín contou à BBC sobre sua primeira impressão da cela de Wilde. "Acho que o prédio deixa claro a dimensão da miséria", disse ele.
O trabalho de Tóibín, tanto ficcional como acadêmico, reflete regularmente sobre a vida e a obra de Wilde.
No entanto, a primeira leitura que Tóibín fez de De Profundis ocorreu depois de sua fascinação, na juventude, com as famosas peças e ensaios de Wilde e até mesmo depois do último trabalho do artista, A Balada do Cárcere de Reading (1898).
"Foi muito depois que eu encontrei De Profundis e entendi as circunstâncias nas quais ele foi escrito, e comecei a apreciá-lo por seu estilo e tom", afirmou Tóibín. "Por causa da história estranha ligada à sua publicação e por sua forma híbrida, acho que este não é um trabalho tão conhecido como o restante da obra de Wilde."
Para Tóibín De Profundis é o melhor trabalho de Wilde em prosa. "O tema é o amor proibido e isso só aumenta o interesse em torno da obra."
As circunstâncias da criação da carta são certamente extraordinárias. Wilde estava definhando sob as duras condições e isolação extrema de sua sentença - os presos não tinham permissão para ter contato uns com os outros, nem mesmo durante o serviço religioso.

Oscar Wilde com Alfred 'Bosie' DouglasImage copyrightBRITISH LIBRARY ARCHIVE, OSCAR WILDE COLLECTION IT
Image caption'De Profundis' é endereçada ao amante e traidor de Wilde, Lorde Alfred 'Bosie' Douglas, na foto com o escritor

No entanto, Major Nelson, o novo diretor da prisão, adotou um tom mais compassivo e permitiu que Wilde tivesse acesso diariamente a papel e caneta para escrever uma carta para "fins medicinais".
Em um artigo para o jornal The Guardian, Tóibín descreveu como os presos eram proibidos de escrever peças, romances e ensaios, mas tinham a permissão para escrever cartas.
"Durante o regime anterior, Wilde tinha escrito para procuradores e para o Escritório do Interior, ou, em limitadas quantidades, para amigos. Mas suas cartas eram inspecionadas e os materiais para escrita eram confiscados assim que ele terminava de escrever", disse Tóibín.
"No entanto, o regulamento não especificava quão longa uma carta deveria ser. E se uma carta não tinha sido terminada, o prisioneiro poderia receber a permissão para levá-la consigo quando deixasse a prisão."
Wilde escreveu de maneira fervorosa durante os três primeiros meses de 1897, passando de mágoas ardentes e acusações amargas contra seu amante - "É claro que eu deveria ter me livrado de você" - a um tom surpreendentemente espiritual.
O fato de a carta não ter sido, na teoria, terminada, fazia com que ela fosse devolvida a Wilde nos dias seguintes, e suas 20 páginas, com cerca de 55 mil palavras, foram entregues ao escritor quando ele foi finalmente solto.

Escrita censurada

Livre, porém debilitado, Wilde não entregou a carta para Bosie, a quem o documento se dirigia, e sim para seu amigo e ex-amante, o jornalista Robert Ross. Bosie diria mais tarde que destruiu sua cópia sem ler.
Ross supervisionou a publicação do material, lançado em 1905 - cinco anos depois da morte de Wilde, aos 46 anos -, e deu o nome de De Profundis (traduzido como "Das Profundezas"), buscando inspiração no Salmo 130.
A primeira publicação foi bastante resumida, excluindo todas as menções a Bosie e à sua família, e o manuscrito original foi entregue por Ross à British Library.
Em outras edições, o texto foi expandindo gradualmente - incluindo uma tentativa do filho de Wilde, Vyvyan Holland, de apresentar a carta completa em 1949 -, mas uma versão sem censura de De Profundis foi publicada apenas em 1962, quase duas décadas depois da morte de Bosie.

Oscar Wilde com Alfred 'Bosie' DouglasImage copyrightNATIONAL PORTRAIT GALLERY, LONDON
Image captionWilde e Douglas em 1893, dois anos antes de o escritor ser preso por 'indecência vulgar' com um homem

De Profundis foi descrito de diversas maneiras ao longo das últimas décadas, desde "carta de amor revolucionária" até "autobiografia" ou "sermão".
O texto não se encaixa facilmente em apenas uma categoria, o que seria parte da razão de ainda provocar reações e leituras tão emotivas.
Muitos trechos da carta parecem ser estranhamente modernos. Sua afirmação de que "o sentimentalismo é apenas o cinismo durante um feriado" ainda é afiada.
Mas, para Tóibín, a revelação mais chocante de Wilde continua sendo que "o vício supremo é a superficialidade". "Ele era um sacerdote da frivolidade e procurava por seriedade através de seus opostos", afirmou Tóibín.
"Ele entendia sua própria importância. E deu seu nome a uma era, a um tipo de sensibilidade. Mas nos últimos anos de sua vida, depois que foi solto, ele sofreu muito - muito disso, provavelmente, para refletir sobre seu legado."
Legado este que, hoje, parece ter mais camadas e significados do que nunca. A carta que Wilde nunca enviou continua a ter detalhes inesperados.
Fonte: BBC

Enfrentando doença degenerativa, Ricardo Piglia lança memórias

Ricardo Piglia tinha 16 anos e levava uma feliz vida de adolescente suburbano em Adrogué, na província de Buenos Aires, quando, subitamente, seu pai tomou a decisão de mudar-se dali. Peronista, dom Piglia tinha se metido numa disputa política local que ameaçava a paz de sua família naquela cidade.

O jovem Ricardo, inconformado, sentado no banco de trás do carro, ficou arrasado por ter de deixar os amigos.

O escritor argentino Ricardo Piglia

"A viagem foi para mim uma travessia para o desterro. Eram apenas 400 km até Mar Del Plata [onde a família se instalou], mas eu estava deixando para trás toda uma forma de vida. Foi um rito de passagem. Soa como um exagero, mas as experiências decisivas surgem para nós como exageros. O que importa nos fatos é a intensidade que atribuímos a eles", diz o escritor em entrevista à Folha.

As dificuldades para se adaptar à nova cidade lançaram Piglia numa viagem interior. Começou, então, a escrever um diário, que mantém até hoje e já ocupa mais de 327 cadernos de anotações, guardados em 40 caixas.

"Foi o começo da literatura para mim. Se não tivesse começado a escrevê-lo naquela época, não teria escrito mais nada depois", explica.

INÉDITOS

Desde aquele longínquo 1957, Piglia, hoje aos 74, estava determinado a manter esses escritos pessoais inéditos. Há alguns anos, soltou partes no jornal espanhol "El País". Estava experimentando a ideia de torná-lo público quando soube que sofre de esclerose lateral amiotrófica, uma doença degenerativa que vem limitando sua capacidade de trabalho.

Imediatamente, foi acometido por um entusiasmo de produção. O primeiro volume das memórias, reeditadas e com intervenções, chega às livrarias na Argentina e em outros países de língua hispânica (sem previsão para o Brasil). Com a ajuda de uma assistente, Piglia dá forma, às pressas, aos dois volumes que completam a série.


Os livros saem com os títulos de "Los Diarios de Emilio Renzi", nome de seu alter ego, presente em obras como "Respiração Artificial" e "Alvo Noturno" (ambos publicados aqui pela Companhia das Letras). Piglia afirma que usa esse recurso porque "é preciso dar uma reviravolta irônica às intimidades".

O escritor preferiu não trabalhar com suas anotações em uma ordem cronológica rígida. "Escolhia os cadernos ao acaso e os copiava. A vida é mais fácil de se levar adiante se é fragmentada e aos saltos. Há uma pulsão à la Proust de entrar e sair do tempo recuperado. As notas manuscritas e datadas foram minha 'madeleine' e minha máquina do tempo", resume.

Paralelamente ao lançamento do primeiro volume, veio a público "327 Cuadernos", documentário de Andrés Di Tella. O filme traz o autor lendo, nos dias de hoje, passagens de suas anotações desde a adolescência, misturadas a imagens da conturbada história argentina desde então –ditaduras militares, os governos de Juan Domingo Perón (1895-1974).

"Desde que ficou doente, e inclusive desde que já não podia mais escrever sozinho, Piglia começou a trabalhar como nunca. Além da edição dos diários, terminou um livro de ensaios ['Las Tres Vanguardias'], colaborou no documentário, e não me surpreenderia se estiver trabalhando em alguma outra coisa", diz à Folha Di Tella –cujo filme deve ser exibido no Brasil neste semestre.

TENACIDADE

Para o amigo e escritor Edgardo Cozarinsky, "a doença costuma ser um motor para a criatividade. Há alguns meses, Ricardo me disse: 'Não me sinto doente. Meu corpo está doente'". Cozarinsky conta que se impressionou com seu método de trabalho: "A saúde já o obriga a ditar por várias horas diárias, e ele o faz com uma tenacidade exemplar. É uma vitória da vitalidade contra obstáculos que pareciam fatais."

Piglia diz que o filme jogou outra luz aos escritos. "O diário foi o motor de toda minha escritura. Mas não é a mesma coisa escrever sobre algo pessoal e ser filmado falando disso. A exposição fazia com que fosse difícil referir-me ao que estava nos cadernos. Essa tensão dá interesse ao documentário."

Nas últimas semanas, o autor voltou aos noticiários por enfrentar seu plano de saúde, que se recusava a cumprir uma determinação da Justiça e oferecer tratamento com uma nova medicação, o GM604. O convênio alegava que a droga estava em fase de teste e por isso recusava-se a bancar o valor de cada dose, de US$ 120.000 (cerca de R$ 480.000).

Foi aí que o artista Roberto Jacoby iniciou a um abaixo-assinado para pressionar o convênio. Em poucos dias, alcançou mais de 80 mil assinaturas e o plano cedeu. A esclerose lateral amiotrófica não tem cura, mas um bom tratamento pode retardar os efeitos.

Para Piglia, pode significar o tempo que precisa para completar o legado que quer deixar como um dos escritores essenciais da literatura latino-americana contemporânea.

Limited edition of 'Mein Kampf' drives up prices online

The first print run for the new critical edition of "Mein Kampf" was surprisingly modest: 4,000 copies. With all the debate surrounding the work, no wonder interest in the book is much higher.



The Institute for Contemporary History in Munich (IfZ) was cautious in its expectations by starting out with 4,000 copies: Already on January 8, the day the scholarly edition of Hitler's manifesto was released, 15,000 pre-orders had been placed. A second impression of the 2,000-page long work is therefore underway.

However, there was good reason for the caution: A huge first run could have led to sales that would have inadvertently pushed the anti-Semitic work onto the bestseller lists, an embarrassment not worth risking.

Although many booksellers are taking pre-orders, some people are ready to pay a
high price to get their hands on the controversial book right away. It could be found on Amazon on Wednesday (13.01.2015) for 375 euros ($408).

An Amazon spokesperson said that this was done without the company's consent, as third-party resellers were not allowed to violate the existing fixed book price agreements. Amazon plans to donate all of its "Mein Kampf" profits to a charity supporting victims of the Holocaust.

The critical edition is also being auctioned on Ebay. One copy was sold for 276 euros on Wednesday, through an auction which started at one euro.

A spokesperson for IfZ said that such prices were exaggerated, and that the book would be available shortly - those who can wait a little will then pay the normal price of 59 euros.

Demanda por reedição de 'Minha Luta', de Hitler, impressiona editora


Primeira edição do livro "Minha Luta", de Adolf Hitler

O tratado político de dois volumes, escrito entre 1924 e 1926 e que propõe uma conspiração global judaica, é considerado uma das principais ferramentas de propaganda nazista. Após expirar os 70 anos de direitos de autor, ele foi reeditado com 2.000 páginas em uma versão com anotações.

A grande demanda para a edição do livro "Minha Luta" ("Mein Kampf", no original), escrito por Adolf Hitler, a primeira a ser impressa na Alemanha desde a sua morte, pegou seu editor de surpresa, com pedidos quase quatro vezes superiores à tiragem.

O chefe do Instituto de História Contemporânea de Munique, que publicou o trabalho, disse que havia recebido pedidos de cerca de 15 mil cópias, contra uma tiragem de apenas 4.000.

De acordo com Andreas Wirsching, foram solicitadas traduções em italiano, francês e inglês, e há demanda na Turquia, China, Coreia do Sul e Polônia, afirmou em entrevista coletiva nesta sexta-feira (8).

A publicação desencadeou uma discussão feroz na Alemanha, que ainda luta contra seu passado nazista e a responsabilidade pela morte de mais de 6 milhões de judeus durante o Holocausto. Alguns líderes da comunidade judaica alemã disseram que a obra deve permanecer banida.

Mas o instituto, que acrescentou cerca de 3.500 notas ao texto, defende a publicação.

"A edição desmascara falsas alegações de Hitler, sua justificativa e mentiras categóricas", disse Wirsching.

O livro se tornou um best-seller na Alemanha na década de 1930, depois que Hitler se tornou chanceler, vendendo 12 milhões de cópias durante a Segunda Guerra Mundial. Foi traduzido em 18 idiomas, mas depois da guerra foi proibido na Alemanha pelas potências aliadas.

"O livro não é apenas uma fonte histórica, é um símbolo", disse Christian Hartmann, coeditor da edição. "E nós queremos desmantelar esse símbolo de uma vez por todas."

Livro que ensinou a Neil Gaiman que as palavras são bonitas será lançado pela Poetisa

Neil Gaiman The 13 Clocks


Desde que ouviu Neil Gaiman lendo um trecho de The 13 Clocks na Mesa de Cabeceira da Flip, quando os convidados dizem qual livro levariam para uma ilha deserta, a tradutora Cynthia Costa sonhava com a obra de James Thurber (1894-1961). Esse foi o primeiro livro que o cultuado autor de graphic novel leu na vida, aos 7 anos – e foi quando, ele contou em Paraty em 2008, descobriu que as palavras eram bonitas. “Voltei a ele já adulto e descobri que elas eram bonitas como eu me lembrava”, disse Gaiman, que sempre que pode indica o livro. Sete anos depois daquela leitura e alguns meses após a criação da Poetisa, editora que Cynthia divide com Juliana Bernardino, ela adquiriu os direitos do livro. Com as ilustrações originais (o livro é de 1950), prefácio de Neil Gaiman para a edição americana, novo projeto gráfico e tradução de Érico Assis, Os 13 Tique-taques deve sair entre março e abril.

INDEPENDENTE

Um ano de Nós
A editora Nós, de Simone Paulino, faz um ano este mês com planos de mais do que dobrar o catálogo em 2016. Serão 4 títulos no 1.º semestre: as antologias A Inocência das Facas e Olhar Paris, o romance Mentiras, estreia de Felipe Franco Munhoz (com protagonista inspirado em Philip Roth) e Um Quarto na Holanda– breve biografia de Descartes, por Pierre Bergounioux. Isso, só para começar.

CAPA

Trajetória ilustrada
Nos 60 anos da morte de Tomás Santa Rosa, Ateliê e Edições Sesc lançam Capas de Santa Rosa, a mais ampla coletânea com o trabalho do artista.


FICÇÃO

Lançamento duplo
Resultado de dois anos de trabalho de pesquisa e tradução de Sérgio Medeiros, A Borboleta e o Sino será lançado em meados de março pela catarinense Cultura e Barbárie. Trata-se de uma antologia de haikus de Yosa Buson. Medeiros, que é poeta e professor de literatura, manteve a métrica clássica (5-7-5 sílabas) e considerou a música do original. O volume traz ainda cada poema em romaji, a escrita japonesa que usa o alfabeto latino.
*
Será um lançamento duplo. Dirce Waltrick do Amarante, também professora e tradutora (Joyce, Carroll), estreia na ficção com o livro Ascensão – Contos Dramáticos.

INFANTIL

A volta do menino lobo


Com texto original de 1894, O Livro da Selva, de Rudyard Kipling, ganha ilustrações (acima) do mexicano Gabriel Pacheco e edição, em março, da WMF Martins Fontes. A obra traz a fábula de Mogli, o urso Baloo, a pantera Bagheera e o tigre Shere Khan. Um novo filme baseado na obra – o primeiro é de 1960 – estreia em abril.

NÃO FICÇÃO

Bobbio e o crescimento
Já a Martins Fontes – Selo Martins terá, entre os destaques de 2016, o lançamento de Escritos Sobre Marx, de Norberto Bobbio – de quem a Unesp acaba de lançarDemocracia e Segredo e Política e Cultura – e 24 Horas na Vida de Uma Mulher, de Stefan Zweig. Desde 2009, quando os irmãos dividiram o catálogo, a editora de Evandro Martins Fontes registra, em média, anualmente, aumento de 3,5% no lucro.

LIVRARIA

O próximo capítulo
A Amazon está vendendo os e-books da Cosac Naify com cerca de 50% de desconto. A expectativa é que esse seja apenas o primeiro passo da parceria.

Compare as quatro versões de 'O Diário de Anne Frank'


Como antecipa a coluna Painel das Letras deste sábado (9), o brasileiro Daniel Dago, um dos principais tradutores do holandês em atividade no país, resolveu verter para o português "O Diário de Anne Frank".

O livro é alvo de uma polêmica internacional. Há quem defenda que a obra entrou em domínio público em 2016, quando a autora fez 70 anos de morte. A Anne Frank Fonds, fundação que detém os direitos do livro, diz que não —Otto Frank, pai da autora, teria direitos autorais sobre a obra. Como seria organizador do diário, o livro só entraria em domínio público depois dos 70 anos de morte dele.

Para entender a polêmica, é preciso saber que existem quatro versões do diário. O texto bruto escrito por Anne (versão A); um segundo, editado pela garota para publicação (B); a versão de Otto Frank (C); e a da escritora alemã Mirjam Pressler (D), organizada em 1995.

A Folha pediu que Daniel Dago traduzisse dois trechos nas quatro versões, para que fosse possível compará-los. A ideia é jogar luz sobre a polêmica: Otto Frank foi "organizador" do diário, como diz a Anne Frank Fonds, ou seu mero editor?

Confira as traduções abaixo:

PRIMEIRO TRECHO

Versão A
Segunda-feira, 14 de fevereiro de 1944

Cara Kitty,

Domingo à noite todos nós, exceto Pim e eu, ficaram ouvindo no rádio "'Unsterbliche Musik Deutscher Meister". Pfeffer girou persistentemente o botão, Peter se aborreceu e os outros também. Depois de conter o nervosismo por meia hora, Peter pediu, um pouco irritado, que parasse de girá-lo. Pfeffer respondeu com ar vanglorioso: "Ich mach' das schon!". Peter ficou bravo, atrevido, o senhor Van Pels ficou de seu lado, e Pfeffer teve que ceder. Foi isso.

O motivo da briga não era, ensi [sic], tão extraordinariamente importante, mas estava claro que Peter levou o assunto bem a sério, de qualquer maneira, quando eu fui vasculhar, de manhã, a prateleira de livros do sótão, ele começou a me falar sobre a questão. Eu não sabia de nada, Peter notou que tinha encontrado uma ouvinte atenta e começou a se animar.

"É, sabe", ele disse, "eu não falo muito, pois já sei de antemão como as minhas palavras vão soar. Vou gaguejar, ficar vermelho, e mudar as palavras que queria dizer. Ontem mesmo quis falar coisas bem diferentes, mas, quando comecei, acabei embaralhando tudo. Isso é terrível; eu tinha um hábito horrível, às vezes, antigamente, quando ficava bravo com alguém, preferia sair na porrada do que ir discutir. Mas sei que isso não leva a nada e por isso te admiro tanto, pelo menos você solta palavras, diz o que quer dizer, e não é tão tímida."

"Olha só,", respondi", geralmente, eu também falo coisas bem diferentes do que queria dizer. Falo muito e isso também não é bom!"

Peter continuou falando e sempre acabava voltando a mencionar o Pfeffer. Não vou escrever o que ele disse, pois você vai fazer birra do Pfeffer comigo, mas tudo bem. Só que vou repetir uma coisa que ele disse:

"Ontem à noite eu estava tão nervoso que tremi inteiro, como nunca tinha feito; nem me reconheço mais! Não me acontece sempre, sou diferente, quase nunca fico nervoso."

Eu realmente senti pena dele. Ele ficou ali, claramente desinteressado, apoiado no saco de batatas, enquanto eu quase fiquei na frente de seus pés. E, pelas palavras, pelos gestos, pela voz, pelos olhos, pude notar que havia dentro dele uma raiva maior do que quando ficava comigo. Ele é a pessoas da mesma idade com a qual me relaciono e mesmo assim tudo é incerto.

Versão B
Segunda-feira, 14 de fevereiro de 1944

Cara Kitty,

Domingo à noite todos nós, exceto Pim e eu, ficaram ouvindo no rádio "'Unsterbliche Musik Deutscher Meister". Dussel girou persistentemente o botão. Peter se aborreceu e os outros também. Depois de conter o nervosismo por meia hora, Peter pediu, um pouco irritado, que parasse de girá-lo. Dussel respondeu em seu tom vanglorioso: "Ich mach' das schon!". Peter ficou bravo, atrevido, o senhor Van Daan ficou de seu lado e Dussel teve que ceder. Foi isso.

O motivo da briga não era, em si, tão extraordinariamente importante, mas estava claro que Peter levou o assunto bem a sério. De qualquer maneira, quando eu fui vasculhar, de manhã, a prateleira de livros do sótão, ele começou a me falar sobre a questão. Eu não sabia de nada, Peter notou que tinha encontrado uma ouvinte atenta e começou a se animar.

"É, sabe", ele disse, "eu não falo muito, pois já sei de antemão como as minhas palavras vão soar. Vou gaguejar, ficar vermelho e mudar as palavras que queria dizer, aí vou ter que cortas as minhas afirmações, pois já não encontro mais as palavras. Ontem quase acabei querendo falar coisas bem diferentes, mas quando comecei, acabei embaralhando tudo, e isso é terrível.

Antigamente, eu tinha um hábito horrível, que ainda gostaria de ter: quando ficava bravo com alguém, preferia sair na porrada do que discutir. Mas sei que esse método não leva a nada e por isso te admiro tanto, pelo menos você solta palavras certas, diz o que quer dizer, e, ao menos, não é muito tímida.

"Então você está errado,", respondi, "na maioria dos casos eu também falo coisas bem diferentes do que tinha pensado primeiro e falo demais, por muito tempo, isso é bem ruim."

"Pode ser, mas você tem a vantagem de que nunca percebem que você está tímida. Continua com a mesma cor e disposição."

Para não rir dessa última frase, tive que ficar em silêncio, queria que ele continuasse falando tranquilo sobre si mesmo, não deixei que notasse nada da minha alegria, fui sentar numa almofada no chão, coloquei os braços em volta das pernas duras e o olhei perceptivamente.

Fiquei bastante contente que ainda houvesse alguém em casa que fizesse as mesmas birras que eu. Peter pareceu bem por poder criticar Pfeffer usando os piores termos e sem ter medo de ser dedurado. E eu, eu também gostei, pois tive um forte sentimento de confraternidade, que só tinha tido com minhas amigas

Sua Anne.

Versão C
Segunda-feira, 14 de fevereiro de 1944

Cara Kitty,

Domingo à noite todos nós, exceto Pim e eu, ficaram ouvindo no rádio "'Unsterbliche Musik Deutscher Meister". Dussel girou persistentemente o botão. Peter se aborreceu e os outros também. Depois de conter o nervosismo por meia hora, Peter pediu, um pouco irritado, que parasse de girá-lo. Dussel respondeu num tom vanglorioso: "Ich mach' das schon!". Peter ficou bravo, atrevido, o senhor Van Daan ficou de seu lado e Dussel teve que ceder. Foi isso.

O motivo da briga não era, em si, tão extraordinariamente importante, mas estava claro que Peter levou o assunto bem a sério. De qualquer maneira, quando eu fui vasculhar, de manhã, a prateleira de livros do sótão, ele começou a me falar sobre a questão. Eu não sabia de nada daquilo, Peter notou que tinha encontrado uma ouvinte atenta e começou a se animar.

"É, sabe", ele disse, "eu não falo muito, pois já sei de antemão como as minhas palavras vão soar. Vou gaguejar, ficar vermelho e mudar as palavras que queria dizer, até ter que cortas as minhas afirmações, pois já não encontro mais as palavras. Ontem quase acabei querendo falar coisas bem diferentes, mas quando comecei, acabei embaralhando tudo, e isso é terrível. Antigamente, eu tinha um hábito horrível, que ainda gostaria de ter. Quando ficava bravo com alguém, preferia sair na porrada do que discutir. Mas sei que esse método não leva a nada e por isso te admiro, pelo menos você solta palavras certas, diz o que quer dizer, e, ao menos, não é muito tímida."

"Então você está errado,", respondi, "na maioria dos casos eu também falo coisas bem diferentes do que tinha pensado primeiro e falo demais, por muito tempo, isso é bem ruim."

Para não rir dessa última frase, tive que ficar em silêncio, queria que ele continuasse falando tranquilo sobre si mesmo, não deixei que notasse nada da minha alegria, fui sentar numa almofada no chão, coloquei os braços em volta das pernas duras e o olhei perceptivamente.

Fiquei bastante contente que ainda houvesse alguém em casa que fizesse as mesmas birras que eu. Peter pareceu bem por poder criticar Dussel usando os piores termos e sem ter medo de ser dedurado. E eu, eu também gostei, pois tive um forte sentimento de confraternidade, que só tinha tido com minhas amigas.

Sua Anne.

SEGUNDO TRECHO (não existe versão B)

Versão A
Segunda-feira, 14 de fevereiro de 1944

Cara Kitty,

Muita coisa mudou para mim desde sábado. Por causa disso: eu ansiava (e ainda anseio) mas... já tive ajuda numa pequena, pequenina, parte.

Domingo de manhã notei (sendo honesta, para minha grande alegria) que Peter ficou me olhando. De maneira bem diferente do normal, não sei, não consigo explica como, mas de repente senti que ele não estava tão apaixonado pela Margot como eu tinha pensado. Durante o dia inteiro, de propósito, não o olhei muito, pois, quando o via, ele também sempre me olhava e então - sim, então senti uma coisa maravilha, que não sinto com frequência.

Segunda de manhã tive que ir ao sótão pegar uns livros para o senhor Pfeffer, então Peter logo aproveitou a oportunidade e também foi lá para cima. Conversamos sobre coisas banais; o senhor Van Pels estava perto e fui relativamente rápido lá para baixo. Quando dei os livros ao Pfeffer, acabei voltando a ler (claro que podia muito bem adiar, mas não fiz isso).

Subi as escadas de novo, com o casaco, e fui sentar numa pilha de sacos no chão, com uma almofada no topo. A janela estava aberta, o sol brilhava maravilhosamente, e eu estava contente, pois sabia que ele iria voltar. Ele realmente veio e me contou o que tinha acontecido na noite anterior.

Tenho uma necessidade horrível de ficar sozinha. Papai comenta que eu não estou normal, mas não digo nada a ele. "Me deixa em paz, me deixa em paz!", era só isso que eu queria gritar. Quem sabe se me deixasse em paz eu ficaria mais doce!

Anne Frank

Versão C
Domingo, 13 de fevereiro de 1944

Cara Kitty,

Muita coisa mudou para mim desde sábado. Por causa disso. Eu ansiava - e ainda anseio - mas... já tive ajuda numa pequena, pequenina, parte.

Domingo de manhã notei - serei honesta -, para minha grande alegria, que Peter ficou me olhando. De maneira bem diferente do normal, não sei, não consigo explica como.

Antes eu achava que Peter estava apaixonado pela Margot, agora, de repente, sinto que não está mais. Durante o dia inteiro, de propósito, não o olhei muito, pois, quando o via, ele sempre me olhava e então - sim, então senti uma coisa maravilha, que não sinto com frequência.

Tenho uma necessidade horrível de ficar sozinha. Papai comenta que eu não estou normal, mas não digo tudo a ele. "Me deixa em paz, me deixa em paz!", era só isso que eu queria gritar. Quem sabe se me deixasse em paz eu ficaria mais doce"

Sua Anne.

Versão D
Segunda-feira, 14 de fevereiro de 1944

Querida Kitty,

Muita coisa mudou para mim desde sábado. O que aconteceu é o seguinte: eu estava sentido falta de algo (e ainda estou), mas... uma parte pequena, muito pequena, do problema seu resolveu.

Na manhã de domingo, percebi, para minha grande alegria (vou ser franca com você), que Peter ficou me olhando o tempo todo. Não de um jeito comum. Não sei, não posso explicar, mas de repente tive a sensação de que ele não está apaixonado por Margot, como eu achava. Durante o dia inteiro, tentei não olhar muito para ele, porque sempre que fazia isso via que ele estava me olhando, e então - bom, isso fez com que eu me sentisse maravilhosa por dentro, e essa não é uma sensação que costume ter.

Na noite de domingo, todo mundo, menos Pim e eu, estava apinhado em volta do rádio, ouvindo o programa "Música Imortal dos Mestres Alemães". Dussel ficava o tempo inteiro virando os controles, o que incomodava Peter e os outros também. Depois de se conter durante meia hora, Peter pediu, meio irritado, que ele parasse de mexer no rádio. Dussel respondeu em seu tom de voz mais arrogante:

- Ich mas das schon!

Peter ficou irritado e fez uma observação insolente. A sra. van Daan ficou do lado dele, e Dussel teve de recuar.

O motivo da discordância não era nada interessante, mas parece que Peter levou a coisa muito a sério, porque, hoje de manhã, quando eu estava remexendo no caixote de livros no sótão, ele veio e começou a contar o que havia acontecido. Eu não sabia de nada, mas logo Peter descobriu que tinha encontrado uma ouvinte atenta, e foi se empolgando.

- Bom, é assim - disse ele. - Geralmente não falo muito, porque já sei que vou ter dificuldade. Começo a gaguejar e a ficar vermelho e confundo as palavras até que preciso parar, porque não encontro as palavras certas. Foi isso que aconteceu ontem. Eu queria dizer uma coisa completamente diferente, mas assim que comecei, misturei tudo. É horrível. Eu tinha um péssimo hábito, e às vezes gostaria de ainda ter: sempre que ficava furioso com uma pessoa, batia nela em vez de discutir. Sei que esse método não leva a nada, e é por isso que admiro você. Você nunca fica sem palavras: diz exatamente o que quer dizer e não se intimida nem um pouco.

- Ah, você está errado - respondi. - A maioria das coisas que digo sai muito diferente do que planejei. Além disso, falo muito e por muito tempo, o que também é ruim.

- Talvez, mas você tem a vantagem de que ninguém consegue ver que você está confusa. Você não fica vermelha nem se atrapalha.

Não pude deixar, no íntimo, de achar engraçado o que ele tinha dito. Mas, como queria que Peter continuasse falando calmamente a seu respeito, prendi o riso, sentei-me numa almofada no chão, abracei os joelhos e olhei-o atentamente.

Fico feliz ao ver que mais alguém nesta casa tem as mesmas fúrias que eu. Peter pareceu aliviado por poder criticar Dussel sem ter medo de que eu desse com a língua nos dentes. Quanto a mim, fiquei satisfeita também, porque tive uma sensação forte de amizade, que só me lembro de ter compartilhado com minhas amigas.

Sua Anne

Nova editora lança livros de política e temas sociais para crianças



No fim de 2015 foi fundado o Boitatá, selo infantojuvenil da editora Boitempo, que se concentra em história, política e economia, tendo como eixo principal o pensamento de esquerda. Seus livros infantis de estreia, indicados para leitores a partir de oito anos, não trazem contos de fadas ou histórias de bruxas –foram selecionados textos sobre política e classe social, por exemplo.

"Queremos despertar o questionamento na criança, fugir da história cuja personagem principal que é uma princesa branca, loira, bonitinha, pronta para obedecer", diz Ivana Jinkings, diretora editorial da Boitempo.

Em 1995, ao criar a editora, cujo nome pegou emprestado de um poema de Carlos Drummond de Andrade e de uma antiga editora criada nos anos 1960 por seu pai, o dirigente comunista Raimundo Jinkings, Ivana tentou dialogar com a universidade e a academia, publicando pensadores brasileiros e traduzindo nome estrangeiros como Karl Marx.

Nada mais distante do universo infantil. No aniversário de 20 anos da editora, comemorado no ano passado, a casa decidiu tirar do papel o velho desejo de abrir um canal com as crianças.

A Boitempo, até então, não tinha a mesma estratégia de grandes editoras do país, que viram no livro infantojuvenil um atrativo para pais, escolas e, principalmente, para as compras do governo –e uma maneira de alavancar suas vendas. De acordo com a Câmara Brasileira do Livro, o mercado editorial para crianças e adolescentes no Brasil foi responsável em 2014 por quase 12% de toda a produção de livros, colocando nas livrarias 57 milhões de exemplares.

Com a crise econômica e os cortes orçamentários em 2015, no entanto, as compras governamentais foram adiadas ou suspensas, o que deve afetar os números do ano. "A Boitempo é uma editora que dificilmente entra na lista de livros comprados pelo governo. Quando lançamos um selo infantil e temos a chance de entrar nela, as compras são suspensas (risos)."

Para ultrapassar a fronteiras dos filhos e alunos dos leitores da editora, Ivana aposta que os livros sejam trabalhados em sala de aula. Para atrair ainda mais os professores, obras de ficção serão lançadas neste ano e há a estratégia de descolar a Boitatá da definição "de esquerda".

"É difícil dizer que um livro para crianças seja de esquerda. Queremos publicar um texto inteligente, que plante uma sementinha na cabeça do leitor, para que ele repense seu lugar no mundo. Nossos livros são para crianças inteligentes, e não para crianças de esquerda."

Os dois primeiros títulos, "A Ditadura É Assim" e "A Democracia Pode Ser Assim" já foram lançados. Os próximo, "O Que São Classes Sociais?" e "As Mulheres e os Homens", devem chegar às livrarias no final de fevereiro ou no começo de março. A editora já está trabalhando nos primeiros livros de ficção, que serão lançados ainda em 2016, além de numa coleção para adolescentes, prevista para 2017.

'Shakespeare Lives' celebra 400 anos da morte do dramaturgo

Há 400 anos da sua morte, William Shakespeare continua um dos nomes de maior peso para a cultura mundial e o seu vasto trabalho ainda se encontra em teatros, cinemas, televisão e agora também no Twitter.

Para celebrar o aniversário de falecimento do "Bardo", que acontece no próximo dia 23 de abril, o instituto cultural British Council organizou um calendário de eventos e iniciativas, entre as quais a criação, com a ajuda do primeiro-ministro do Reino Unido, David Cameron, do site e da hashtag "Shakespeare Lives" ("Shakespeare Vive", em tradução livre).

O dramaturgo está mais "vivo" do que nunca e suas obras continuarão imortais através de uma série de eventos que serão disseminados neste ano em 110 países, de festivais internacionais a torneios teatrais, explorando cada meio de expressão, todas as técnicas digitais disponíveis e, sem dúvida, as redes sociais.

Esta parece uma realidade bem distante de 1616, quando o escritor morreu, aos 52 anos de idade, na cidade de Stratford-upon-Avon, na Inglaterra. No entanto, não é tão difícil imaginar o gênio usando o Twitter. As suas numerosas citações e frases, que já entraram no léxico não só da língua inglesa, têm o formato perfeito para os 140 caracteres da plataforma.

Por isso, já se prevê um grande sucesso da hashtag #Shakespearelives, dedicada às comemorações de 2016 e um ótimo modo de poder citar passagens de tragédias como "Hamlet", "Romeu e Julieta" e "Macbeth". "A herança de Shakespeare não tem comparação: as suas obras foram traduzidas em mais de 100 línguas e são estudadas por alunos de metade do planeta", afirmou Cameron.

Obra completa de escritores como Mário de Andrade e Paul Valéry entram em domínio público

A obra completa de Mário de Andrade entrou em domínio público em 2016. Crédito: Lasar Segall/divulgação.

A entrada de uma obra literária em domínio público quase sempre gera aumento significativo de popularidade. Com a liberação dos direitos autorais, há o barateamento de novas edições impressas, surge a possibilidade de criar versões inspiradas na original, sem contar com a natural disponibilização do texto na internet.

Tome-se como exemplo O pequeno príncipe, de Saint-Exupéry, cujas vendagens já eram expressivas mesmo antes de completar 70 anos da morte do autor. Com a liberação, em 2015, as vendas mais que dobraram em relação ao ano anterior, superando os 300 mil exemplares. Em 2016, será a vez de Mário de Andrade, Adolf Hitler, Felix Salten, Antal Szerb.

A princípio, também entraria em domínio público O diário de Anne Frank, mas a detentora dos direitos não está disposta a abrir mão do livro, sob alegação de se tratar de uma obra em coautoria com o pai da garota judia, Otto, morto em 1980. A regra do domínio público vigente no Brasil é orientada pela Convenção de Berna, assinada por vários países.


Mário de Andrade (1893-1945)

Pioneiro do modernismo brasileiro, o escritor marcou a Semana de Arte Moderna de 1922 com o livro Pauliceia desvairada. A principal obra deixada pelo escritor paulista é Macunaíma (1927). Na poesia, são populares Losango cáqui, Clã do jabuti, Remate de males, Poesias e Lira paulistana. Como contista, teve Primeiro andar e Contos novos.

Trecho de Macunaíma

“No fundo do mato-virgem nasceu Macunaíma, herói de nossa gente. [...]


Já na meninice fez coisas de sarapantar. De primeiro: passou mais de seis anos não falando. Se o incitavam a falar, exclamava:— Ai! que preguiça!. . . e não dizia mais nada.[...]


Quando era pra dormir trepava no macuru pequeninho sempre se esquecendo de mijar. Como a rede da mãe estava por debaixo do berço, o herói mijava quente na velha, espantando os mosquitos bem. Então adormecia sonhando palavras-feias, imoralidades estrambólicas e dava patadas no ar.”


Paul Valéry (1871-1945)

Escritor e filósofo francês da escola simbolista. Após se formar em direito, passou a se dedicar completamente à literatura, com forte influência de Stéphane Mallarmé. Sua produção poética é considerada uma das mais importantes da poesia francesa do século 20. Entre os livros publicados no Brasil, estão Alfabeto, Variedades, Poemas apócrifos, Meu Fausto.

Trecho Meu Fausto

“FAUSTO
Você está muito bem assim… E usa a porta para entrar!… E exala um perfume… Com a breca!


MEFISTÓFELES
Não é? Uma ínfima modificação no enxofre clássico e espalho o perfume da flor mais agradável ao olfato.


(Instala-se de modo esquisito em cima da mesa.)


FAUSTO
Você sabe muito bem que os perfumes são os maiores traidores do mundo. Anunciam, esboçam e denunciam os mais requintados desígnios. Quem se perfuma está se oferecendo! Um grande santo sustentava que os odores impedem a meditação.


MEFISTÓFELES
Tanto melhor. A meditação é um vício solitário, que cava no tédio um buraco negro que a estupidez vem preencher. Devo muito à meditação…”


Felix Salten (1869- 1945)

Escritor austríaco com obra dedicada aos contos, romances e ao teatro, entrou para a história como o autor de Bambi, livro adaptado várias vezes para teatro e cinema. A versão mais famosa é o desenho animado lançado pela Disney. No Brasil, o texto original foi lançado pela editora Cosac Naify.


Trecho Bambi

“Ele veio ao mundo no meio da floresta, numa dessas clareiras escondidas na mata que parecem abertas de todos os lados, mas que na verdade estão protegidas por todos os lados.


Naquele lugar havia pouco espaço, apenas o suficiente para ele e a mãe.
Lá estava ele, inseguro sobre as patas finas, o olhar perdido de olhos embaçados que não viam nada, a cabeça caída, tremendo bastante, e ainda muito tonto.


- Mas que bebê lindo! – exclamou a gralha-azul”

Adolf Hitler (1889-1945)

O ditador alemão escreveu, enquanto estava na cadeia, seu único livro, Mein kampf (Minha luta). É um misto de autobiografia e programa ideológico para a Alemanha nazista. A liberação dos direitos e o consequente aumento da popularidade preocupa governos e instituições, pois a obra até hoje serve de influência para os neonazistas. 


Trecho de Minha luta

“Nosso povo alemão, hoje esfacelado, jazendo entregue, sem defesa, aos pontapés do resto do mundo, tem, precisamente, necessidade da força, que a confiança em si proporciona. Todo sistema de educação e de cultura deve visar a dar às crianças de nosso povo a convicção de que são absolutamente superiores aos outros povos”

Macunaíma, de Mário de Andrade, está em domínio público a partir de 2016

Em 2016, um dos maiores clássicos da literatura brasileira, Macunaíma, de Mário de Andrade, entrou em domínio público. Isso acontece porque o primeiro dia do ano é "tradicionalmente" o Dia do Domínio Público e as obras podem ser usadas livremente por qualquer pessoa, sem restrições ou necessidade de pagamento ou autorização. 

Isso significa que a obra poderá ser copiada, xerocopiada, reproduzida e adaptada livremente, assim como todas as outras obras do autor modernista.

As regras de domínio público variam conforme o país. No Brasil, de acordo com a legislação, as obras ficam livres de direitos autorais no primeiro dia do ano seguinte em que se completam 70 anos da morte do autor. Logo, todas as obras de Mário de Andrade entram em domínio público neste ano.

Mário de Andrade

O escritor brasileiro morreu em fevereiro de 1945. Ele foi a figura central do movimento de vanguarda de São Paulo e figura-chave do movimento modernista que culminou na Semana de Arte Moderna de 1922. O escritor foi um dos integrantes do “Grupo dos Cinco”, que deu início ao modernismo no Brasil, formado também por Oswald de Andrade, Anita Malfatti, Tarsila do Amaral e Menotti Del Picchia.

A descentralização da cultura é um dos objetivos do Modernismo e pode ser percebida na obra de Andrade. Suas obras mais conhecidas são o livro de poesias Pauliceia Desvairada, que inspirou a Semana Moderna, e os romances Amar, verbo intransitivo, de 1927, e Macunaíma, de 1928.

Seu livro mais conhecido, Macunaíma, busca uma valorização da cultura nacional. A obra foi adaptada para o cinema por Joaquim Pedro de Andrade em 1969, com Grande Otelo interpretando o protagonista.

Conheça a obra Macunaíma

Ao nascer, Macunaíma manifesta sua principal característica: a preguiça. O herói vive às margens do mítico Rio Uraricoera com sua mãe e seus irmãos, Maanape e Jiguê, numa tribo amazônica. Após a morte da mãe, os três irmãos partem em busca de aventuras. Macunaíma encontra Ci, Mãe do Mato, rainha das Icamiabas. Depois de dominá-la, com a ajuda dos irmãos, faz dela sua mulher, tonando-se assim imperador do Mato Virgem.

O herói tem um filho com Ci e esse morre, ela morre também e é transformada em estrela. Antes de morrer dá a Macunaíma um amuleto, a muiraquitã (pedra verde em forma de sáurio), que ele perde e que vai parar nas mãos do mascate peruano Venceslau Pietro Pietra, o gigante Piaimã, comedor de gente. Como o gigante mora em São Paulo, Macunaíma e seus irmãos vão para lá, na tentativa de recuperar a muiraquitã.

Depois de muitas aventuras por todo o Brasil na tentativa de reaver sua pedra, o herói a resgata e regressa para a sua tribo.

Ao fim da narrativa, após uma vingança, ele perde a pedra de novo, dessa vez sem chance de recuperação. Cansado de tudo, Macunaíma vai para o céu transformado na Constelação da Ursa Maior.

Domínio Público

Quando dizemos que uma obra entrou em domínio público significa que, se você copiar o trabalho, não vai estar infringindo direitos autorais. As pessoas podem reproduzir, copiar, criar obras derivadas, remixar e o que mais lhe vier à cabeça.

Domínio público, no Direito da Propriedade Intelectual, é o conjunto de obras culturais, de tecnologia ou de informação (livros, artigos, obras musicais, invenções e outros) de livre uso comercial, porque não são submetidas a direitos patrimoniais exclusivos de alguma pessoa física ou jurídica, mas que podem ser objeto de direitos morais.

Em geral, os países tornam uma obra pública no primeiro dia do ano seguinte em que se completam 50 ou 70 anos da morte do autor.

[REPERCUSSÃO DE NOTÍCIA] 'The Jungle Book' set for comeback 150 years after Kipling's birth

"The Jungle Book," one of Rudyard Kipling's best-known works, has been beloved by children for decades. But 150 years after his birth, the British author's legacy has been marred by his staunch support of colonialism.


Rudyard Kipling is perhaps best remembered today for "The Jungle Book" and other popular children's adventures stories. But in the late 19th and early 20th century, Kipling was among the most popular British writers of the day, and his books were translated into numerous languages.
Kipling: a "vulgar flagwaver" and "gutter patriot,"
according to Orwe
ll
His legacy today, however, 150 years after his birth, has been marred by the fact that Kipling, who spent his early childhood and some of his adult life in India, vehemently spoke out in defense of British colonialism.

Other writers, such as Argentinean author Jorge Luis Borges, accused him of painting too rosy a picture of colonial exploitation. More than anything else, Kipling's poems came under attack - in particular "The White Man's Burden" (1899), which many have interpreted as a justification of imperialism.

Author George Orwell even called Kipling a morally insensitive "vulgar flagwaver" and "gutter patriot" in a 1942 essay. In spite of such criticism, Kipling's 1901 masterwork "Kim" for which he was awarded the Nobel Prize for literature in 1907, was one of the favorite novels of Jawaharlal Nehru, India's first prime minister. In 1950, the novel was adapted into a movie starring Errol Flynn.

Inner conflicts

Born in what was then Bombay, on December 30, 1865, Kipling felt at home in India - much more so than in England later on. Both his father, who worked as an art school teacher, and his mother showed little interest in their son, and he was raised by a Portuguese nanny and Indian servants. English was like a foreign language to him. At age 6, he was sent to live with foster parents in England in order to receive a good education. In his biography, Kipling recounts the strictness and stringency that reigned in his foster home.

In 1877, his mother joined him in England. One year later, the boy was accepted by the United Services College, a military school where chastity and austerity were high on the agenda. Some of Kipling's stories were inspired by that deeply unhappy period in his life. In 1882, at the age of 17, he was finally able to return to his beloved India.

Literary beginnings

Kipling's father, by now the influential director of a museum in Lahore, Pakistan, saw to it that his son found employment at a local Indian newspaper. In his diary, Kipling described the return to his native Bombay as a happy event, finally rid of the burden of England.
Robert Douglas and Errol Flynn (right) starred in the successful 1950 film adaptation of Kipling's novel "Kim"
Kipling soon learned to speak fluent Hindi and Urdu, and started to write short stories and poems. His employment as an editor enabled him to travel extensively throughout the vast Indian subcontinent. From 1880 onwards, he worked as a correspondent for "The Pioneer" and his books began seeing some sales success. During these years, he wrote his much-acclaimed short story "The Man Who Would Be King," which was adapted into a film starring Sean Connery and Michael Caine in 1975.


'The Jungle Book'

In 1889, Rudyard Kipling returned to London, the cultural and intellectual center of the former British Empire. As a member of the Freemasons, he quickly found access to numerous clubs. Among his writer friends was Henry James. Kipling's first full-length novel, "The Light that Failed," was published in 1890.

Following his marriage in 1892, Kipling and his wife spent four years in the United States. There, he began to write books for children and teenagers, among them the famous "The Jungle Book," followed in 1895 by "The Second Jungle Book".
After the death of his son in World War I, Kipling was never
 again able to repeat his earlier literary success

A family dispute forced Kipling and his family to leave the US and to return to Britain. There, he wrote adventure novels, seafaring stories and some ideologically controversial essays which never expressed any doubts about British colonialism.

Nevertheless, Kipling was an open-minded person in his own way, and the course of his life reflects the contradictions of the era, said German biographer Stefan Welz. "With his narrative style, which has a universal dimension to it, he has reached people from many diverse cultures," he said.

World War I aftermath

In 1907, Kipling received the Nobel Prize for literature, the first British writer to do so. But soon after, his life changed profoundly with the outbreak of World War I. His son, whom he had enabled to join the army by falsifying his birth certificate, was killed in the conflict. Kipling was never able to overcome his grief and guilt, and the optimism present in his earlier works was replaced by a more severe attitude towards life.

Kipling was never again able to repeat his earlier literary success. He died of a cerebral hemorrhage at the age of 70, in 1936. His ashes were interred in Westminster Abbey, right next to the graves of writers Charles Dickens and Thomas Hardy.

Kipling's novels and short stories are still popular to this day. A new translation of the novel "Kim" was recently published in Germany, and Disney is set to release a new film adaptation of "The Jungle Book" in the spring. Nearly 50 years after Mowgli, the bear Baloo, Bagheera, the panther and the tiger Shere Khan first appeared on screen in Disney's animated classic, "The Jungle Book" is set to make a triumphant comeback.

Fonte: Deutsche Welle